Budismo e Psicoterapia I - A descoberta do "mindfulness" pelo mundo psi - A Psique à luz do pensamento budista

February 17, 2013

 

A descoberta do “mindfulness” pelo mundo psi – A Psique à luz do pensamento budista

 

Nos últimos anos a palavra “mindfulness” tem estado a adquirir um espaço próprio no mundo psi, querendo significar “estar no Aqui e no Agora”.

Traduzido literalmente é ter a mente (cognitiva, emocional e sensorial) –

– mind – concentrada por completo – full – no Aqui e Agora.

Alguns terapeutas reduzem, assim, o conceito de “mindfulness” a uma

tomada de consciência de si próprio: “Quando se sentir (irritado/

triste/ansioso/…) sem perceber porquê, eu quero que pare, feche os olhos e concentre-se sobre as emoções que está a sentir naquele momento, nos pensamentos que lhe ocorrem e nas sensações físicas que estiver a sentir” – o mindfulness fica assim limitado a um procedimento ou técnica do

paciente para aumentar o insight (cognitivo, emocional e sensorial)

sobre si próprio.

No entanto, “mindfulness” é muito mais do que isso e não foi sequer descoberto ou “inventado” por um profissional psi.

Antes de ser um recurso novo usado em psicoterapia, “mindfulness” era já popular nos meios da espiritualidade como uma forma de meditação ou mesmo uma atitude revolucionária perante a mente, com um significado

bem mais amplo e abrangente do que o de tomada de consciência

de si próprio.

O conceito de “mindfulness” é originário do Budismo e foi transplantado e adaptado desta disciplina espiritual para a Psicoterapia.

Mas antes de analisarmos em que consiste “mindfulness” na tradição

budista, convém entender a estruturação da Psique à luz do

entendimento budista.

Em primeiro lugar, para o Budismo, a Mente é apenas um instrumento, um instrumento cognitivo, emocional e sensorial através do qual o Ser

conhece o mundo e se conhece a si próprio mas, cima de tudo,

a Mente não é o Ser.

O Ser usa a Mente na sua incursão existencial neste mundo, da mesma

forma que o condutor usa o seu automóvel para fazer uma viagem.

O sofrimento do ser humano, segundo o Budismo, advém, de entre outras causas, da total identificação do Ser com o seu instrumento existencial, como

se o condutor do automóvel se esquecesse da sua própria Natureza e se identificasse completamente com o seu automóvel, passando a acreditar

que a sua existência se limita a conhecer o mundo e a si próprio através

da sua experiência de condutor, relacionando-se com outros automóveis e confundindo os condutores destes com os seus automóveis e acreditando

que a sua vida e dos restantes acabará quando os respectivos automóveis acabarem todos na sucata.

Esta total identificação irá impedi-lo de ser livre, de conhecer a sua

verdadeira Natureza, de – por um breve momento que seja – poder abrir a porta do automóvel, sair deste e permitir-se pensar: “Eu sou mais do que

esta sucata articulada e aparentemente perfeita, eu sou Aquele que conduz 

esta máquina, mas estou longe de ser este automóvel”.

Assim, segundo o Budismo, os seres humanos vivem as suas vidas identificados com as suas Mentes, acreditando que SÃO os pensamentos

que têm, as emoções que vivenciam e/ou a multitude das sensações que experienciam.

A dor resulta desta identificação, da ignorância fundamental da sua

verdadeira Natureza – um dia que os seres humanos consigam perceber

que são donos das suas mentes e não suas vitimas – que podem dispor da

sua Mente como de qualquer outro instrumento serão livres.

A meditação baseada no “mindfulness”, mais do que uma técnica de tomada

de consciência de si próprio, é um instrumento precioso de

auto-conhecimento, através do qual – duma forma experiencial e não

apenas teórica – o praticante tenta perceber “o que o Eu não é”, desidentificando-se dos objectos (materiais, emocionais  e cognitivos) com

os quais se identifica.

Pensamentos, emoções e sensações são os produtos utilizados pelo Eu para interpretar, significar e interagir com o mundo e consigo próprio – mas não são o Eu.

Estes produtos, no seu conjunto, formam o ego – a persona – mas este é apenas o veículo usado pelo Eu na sua viagem existencial.

Uma vez terminada essa viagem, o ego perece mas o Eu continua,

à semelhança dum actor que abandona a personagem duma peça de teatro

e é capaz de vestir diferentes personagens ao longo da sua vida profissional sem nunca se identificar com as mesmas, sem nunca perder a crítica e ficar aprisionado a nenhuma delas.

Nessa desidentificação – na descoberta daquilo que Não É – caminha o aspirante para descoberta do Ser, do Eu – o Inominável, o Omnisciente,

a Fonte – que subjaz a toda a manifestação.

Quando lemos os passos de Bodhisavta até à Iluminação ou Despertar,

o último dos seus passos consistiu numa longa meditação em que

empreendeu uma luta titânica com Mara (simbolizando o seu ego) e este

terá sido o seu passo final de desidentificação total com o ego, em que

acabou por alcançar e realizar a Libertação Espiritual.

 

(CONTINUA)

 

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Dr. João Parente - Psiquiatria e Psicoterapia - Cascais - Carcavelos - Lisboa