A “Cinderela” improvável…

A “Cinderela” improvável…

Atualizado: Mai 2


A “Cinderela” improvável…

Alexandre, engenheiro de electrónica e telecomunicações, um jovem de 32 anos, profissionalmente bem sucedido, inteligente, articulado, dizia-me:

– É isto que eu não entendo em mim, compreende? Posso achar uma mulher muito interessante, começo a sair com ela, de início corre tudo muito bem e depois lá dou por mim a pensar que seria melhor se ela ganhasse tão bem como eu, senão depois vamos ter chatices porque vai haver esta diferença de ordenados o que vai gerar problemas porque, bem ou mal, quem ficar a ganhar menos vai sentir-se menos bem que aquele que ficar a ganhar melhor, mas depois, no meio destes raciocínios, percebo que não faz sentido nenhum e que é ridículo pensar assim!

– O que você procura é uma companheira…

– Sim, exatamente! Mas se não for isto é outra coisa qualquer! No outro dia, quando estava com a Vera comecei a pensar na impressão que ela causaria nos meus amigos e nas mulheres deles. E se eles não gostarem dela? Que figura vou eu fazer? A Vera nem sequer licenciada…

– E as mulheres dos seus amigos são todas licenciadas?

– É aqui que se torna outra vez ridículo: De todos os meus amigos mais próximos só um é licenciado e só a mulher dum outro é que é também licenciada! Mas, mais uma vez, nada disto é realmente importante!

– Alguma importância há-de ter ou estes pensamentos não lhe ocorriam sequer…

– Mas também não quero uma “tótó” do meu lado, quero uma mulher que saiba falar, que seja divertida, que saiba comunicar…

– Então, e resumindo, ela tem que ganhar mais ou menos o mesmo, tem que ser licenciada e extrovertida?

– Já viu o ridículo destes pensamentos?

– São filtros que você impõe a si próprio – acrescentei.

– Mas com tantos filtros, uns atrás dos outros, nunca vou encontrar quem quer que seja!

– Já pensou que pode bem ser essa a função desses filtros todos?

Alexandre apenas sentia que existia conquanto os outros lhe confirmassem a sua existência, sentia-se aceite na mesma medida da aprovação externa e conduzia a sua vida, bem como a sua auto-estima, na dependência da evidência de ser ou não validado por terceiros.

Desta forma, atormentava-o a ideia de ficar só porque a solidão significava a vivência de um arrebatador vazio existencial onde Alexandre não conseguia ver-se nem sentir-se, existir ou ser.

Não compreendia, Alexandre, que não eram os outros que não o viam, que não o aprovavam ou não o aceitavam, mas antes que era ele que não se via a si próprio, não se aprovava ou aceitava senão na lógica, não do que os outros pudessem pensar dele, mas antes do que ele supunha e conjecturava fosse aceitável e aprovável aos olhos dos outros.

Alexandre vivia cego para si próprio no pressuposto de que só existia se outros reconhecessem essa mesma existência.

Assim, havia que fugir a todo o custo da experiência de quase morte que representava a solidão.

Era urgente encontrar uma companheira que o resgatasse desta solidão, que o resgatasse da sua cegueira – e era aí que tudo se tornava mais difícil.

Alexandre alicerçava a sua incapacidade para um relacionamento mais profundo numa miríade de requisitos que as candidatas deveriam ter.

Frequentemente iniciava um relacionamento que estaria condenado a acabar pouco tempo depois por um qualquer motivo menos óbvio.

E assim, convencido de que mais valia esperar pela “mulher certa”, repetia-se a história do príncipe à procura da sua improvável Cinderela.

E enquanto esperava, abatia-se sobre ele o tão intolerável quanto familiar sentimento ensurdecedor de solidão e abandono: “Com a minha idade, a maioria dos meus amigos já estão todos casados!”

Enquanto o príncipe se entretinha a comparar as “cinderelas” dos seus pares às suas candidatas, enquanto cedia aos motivos mais tortuosos para as excluir do seu universo afectivo, não tinha que se encarar a ele mesmo, ao seu sentimento de profunda inadequação e incompetência afectiva – o pavor da intimidade não era senão o pavor que alguém descobrisse a sua humanidade e falibilidade por detrás de todas as suas irrazoáveis exigências de perfeição – e descobrindo-o, o devolvesse a ele próprio, falho, imperfeito, humano, mas porventura amado.

(NOTA – O nomes, a idade do paciente e a sua profissão são fictícios.)



João Parente – Médico Psiquiatra e Psicoterapeuta

Lisboa - Carcavelos - Cascais - Amadora - Sintra

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